sábado, 26 de abril de 2008

Fichamento de SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo, Companhia das Letras. Introdução. (Texto 7).

O texto introdutório de Edward Said presente na produção Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente; visa esclarecer a maneira como o ocidental em meados do neo-colonialismo observara a civilização oriental, fomentando produções literárias e visualizações particulares a respeito de uma cultura extremamente rica e diversificada, mas que passou a ser encarada como um todo alternativo a cultura européia.
Primeiramente o autor registra considerações que conferem nome ao livro, o Oriente segundo o mesmo consiste em uma invenção européia, recheada de itens exóticos, experiências singulares e uma considerável dose de romance. Razão pela qual o termo Orientalismo perde espaço entre os estudiosos desta temática, a nomenclatura além de constituir uma generalização demasiadamente prejudicial, consiste igualmente em signo da dominação do europeu entre o século XIX e início do XX.
Assim registra-se no texto o principal objetivo da produção, possibilitar uma análise do oriente com bases e valores desligados do Orientalismo e suas respectivas escolhas, igualmente demonstrar o quanto a cultura oriental forneceu ao ocidente, fortalecendo a noção de um intercâmbio rico e intenso.
Said especifica que o estudo proposto se relaciona, sobretudo a ocupação Inglesa e a Francesa no Oriente, mais especificamente a Índia e as terras bíblicas, logo o orientalismo até a segunda guerra mundial se resume basicamente a visão destas duas potências a respeito da região mencionada, apenas posteriormente há a participação norte-americana mais intensa, firmando uma dinâmica semelhante.
O exemplo do contato entre Flaubert, homem rico e estrangeiro, e uma cortesã egípcia que acabou por originar um modelo de mulher oriental, corresponde à personificação dos mecanismos de leitura do mundo ocidental em relação ao oriental. As impressões do estrangeiro permitiram que se fossem construídas idealizações e perfis desprovidos de depoimentos ou considerações maiores de seus próprios agentes, portanto a cortesã sequer pronunciou-se, entretanto a observação de Flaubert despontou como “suficiente” para se formar toda a sua personalidade e transformá-la em padrão.
O autor com tal exemplificação objetiva registrar que a análise do oriente do ponto de vista ocidental não deriva de simples devaneios, mas de todo um complexo de pré-julgamentos e concepções anexados ao empirismo, no qual o europeu em momento algum renuncia a sua condição de superioridade.
Somado a esta perspectiva Edward Said discorre sobre uma de suas mais importantes intenções neste trabalho; a desmistificação da impossibilidade de se produzir um conhecimento proveitoso quando este está ligado aos interesses políticos, e de que somente o saber essencialmente apolítico possibilitaria uma análise útil de determinada temática.

O que me interessa agora é sugerir como o consenso liberal de que o “verdadeiro” conhecimento é fundamentalmente apolítico (e de que, ao contrário, o conhecimento abertamente político não é conhecimento “verdadeiro”) obscurece as circunstâncias políticas extremamente organizadas, ainda que de modo obscuro, que predominam quando o conhecimento é produzido. (SAID, p.22).

Diante desta afirmação, a produção discutida visa esmiuçar de que maneira o estudo do oriente, ainda que composto da visão do dominante europeu se mostrou relevante para a civilização ocidental, e juntamente com esta percepção descortinar itens extremamente válidos, ainda que presentes em um discurso político e constituindo-se de um caráter expressamente representativo.

Fichamento de DECCA, Edgar de. O Colonialismo como a glória do império.In:O Século XX.Rio de Janeiro,Civilização Brasileira,2000.pp.153-181.(texto 6)

Edgar de Decca, professor de História da Universidade de Campinas, realiza em seu texto uma abordagem do colonialismo pós-revolução industrial, a fim de identificar os reais agentes motivadores do expansionismo europeu, que culminou com a fragmentação política do globo em áreas de influência disputadas pelas potências, sobretudo as integrantes do velho mundo.
O Professor considera que este processo tenha se originado da necessidade de se expandirem os raios de ação das economias industriais que de modo cada vez mais intenso rivalizavam na obtenção de lucros. Logo, as fronteiras nacionais constituíam sérias limitações às pretensões capitalistas; movidas pelo intuito de superá-las as nações européias proporcionaram uma série de modificações, sobretudo em sua organização política com o objetivo de permitir uma expansão até então inédita em tais moldes.
O autor registra que o continente americano ficou a margem deste processo, dinâmica específica de divisão territorial e ocupação, devido em boa parte pela Doutrina Monroe. Assim, as atenções voltaram-se intensamente para os continentes africano e asiático, estes se tornando os principais alvos de uma divisão territorial feroz entre as potências.
Estabelecidas tais premissas, o texto é direcionado para a compreensão do que é considerado como um forte e inédito fluxo de mercadorias, capital, material bélico e população européia impulsionados pelo intuito de dominação e exploração a qualquer custo, período que está concentrado entre a segunda metade do século XIX e que culmina com a primeira guerra mundial; o Imperialismo.
Decca primeiramente aborda o caráter ambíguo contido na nomenclatura acima citada, pois como o autor menciona em seu texto:

... nada mais equivocado do que utilizar o termo imperialismo como sinônimo de construção de impérios, porque para que este termo tivesse alguma correspondência com a realidade, seria necessário que a nação promotora desse império estendesse as suas leis e suas instituições aos territórios anexados e tornasse os povos dessas regiões tão iguais em direitos quanto aqueles que vivem no território da nação-mãe. (DECCA, 2000,p.157).

Este entendimento se distancia em larga escala do que fora realmente implementado. Diante desta ambigüidade, o autor estabelece o que pode ser entendido como um conceito do “imperialismo” formulado no recorte temporal estudado; o mesmo pode ser considerado como uma política européia de anexação territorial e seus respectivos habitantes objetivando a expansão mercantil capitalista.
O texto ressalta uma particularidade no modus operandi da influência européia sobre o globo, e mais uma vez esta peculiaridade diz respeito ao continente americano. Como aborda Edgar, a ampliação dos mercados se realizou não somente pela ocupação e administração direta das colônias, o modo como o capital inglês incorporou-se ao Brasil através de investimentos em ferrovias e serviços no geral consiste em eficaz exemplo de ampliação do capital sem uma ocupação efetiva.
Retendo-se na esfera inglesa, o autor afirma o pioneirismo inglês na visualização da importância em superar as fronteiras nacionais, a indústria e o capital inglês sentiram de forma anterior as demais nações o caráter emergencial de se ampliarem o número de consumidores e garantir um fluxo constante de investimentos para que se tornasse possível a obtenção de altas taxas de lucros.
Paralelamente a isto o autor menciona a evolução dos partidos socialistas nas nações industrializadas. Estes em meio à corrida imperialista organizaram-se em uma escala crescente a fim de garantir alguns direitos até então completamente esquecidos pelos capitalistas, esta corrente solidificou o propósito revisionista que pouco a pouco se distanciava da luta direta pela destruição do capitalismo, aproximando-se do intuito da incorporação por este de concessões trabalhistas.
Diante desta dinâmica, gradativamente presente nas nações européias as disputas se tornaram irreversivelmente mais acirradas, criando um cenário de conflitos por territórios, por prestígio e poder, além certamente dos mercados consumidores, das zonas de investimentos e os capitais derivados destas. Este processo passo a passo amoldou-se em uma corrida armamentista, alimentada por uma indústria sedenta de produzir, fazer consumir e lucrar.

Fichamento de HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios. (Capítulo III). In: A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1988. pp.88-123.

Eric J. Hobsbawm inicia o capítulo que concede nome ao livro fundamentando a razão de tal denominação. O espaço temporal enfatizado, 1875-1914, segundo o mesmo pode ter este título não somente por introduzir um novo formato de imperialismo, mas igualmente deter um número considerável de governantes que se consideravam imperadores de fato ou simplesmente merecedores desta condição.
Curiosidades a parte, o autor adentra nas questões mais relevantes nos parágrafos seguintes, assim Hobsbawm objetiva vislumbrar as reais motivações que conduziram um grupo de países europeus (juntamente com EUA e Japão, ainda que em proporções mais modestas) a impor sua supremacia bélica e econômica retalhando o globo em divisões por áreas de influência, submetendo os mais diferentes povos e localidades as suas aspirações.
Primeiramente, o texto registra o que especificamente constituiu a divisão implementada por este conjunto de certa forma restrito de países europeus e seus “discípulos” oriental e norte-americano. No período acima mencionado, o mundo, com exceção da América e do próprio continente europeu, fora dividido por Inglaterra, França, e em segunda escala, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica, EUA e Japão. Estes efetivaram uma nova forma de dominação, sobretudo sobre as extensões de impérios decadentes como no caso do espanhol e o português, apesar deste último ter mantido algumas extensões consideráveis devido à impossibilidade de acordo entre as potências de como proceder na respectiva partilha.
A dominação construída variava de região a região, os continentes Africano, Asiático e Americano protagonizaram distintas formas de dependência. Enquanto a África sofreu uma completa divisão territorial, com exceções extremamente restritas, como o caso da Etiópia, que se manteve “independente”; a Ásia conservou de maneira formal extensas áreas não pertencentes aos impérios europeus, contudo fortemente submissas à sua influência, e exatamente com esta nomenclatura um novo tipo de dominação se estabelecia , as chamadas zonas de influência conferiam outros moldes ao imperialismo praticado na parte asiática. O continente americano, através da extrema dependência econômica e do poder que esta confere nas decisões políticas; fora submetido sem uma efetiva ocupação militar por parte do imperialismo europeu.
Estabelecido os formatos do Imperialismo, o autor firma o eixo central de seu texto, distanciando-se de análises superficiais, Hobsbawm propõe o esclarecimento de quais foram as reais motivações para este expansionismo, que a princípio desencadeou-se a partir de disputas por locais de influência, porém acabou por ganhar contornos e significados mais abrangentes.
O autor ressalta o aspecto econômico como a razão mais básica para a divisão do globo. Porém, o mesmo realiza a tentativa de ampliar esta visão. Segundo este, o papel desempenhado pela maioria das áreas ocupadas e submetidas não constitui explicação suficiente para a “colcha de retalhos” na qual o mundo se transformou.
Algumas versões alternativas são utilizadas pela corrente antiimperialista, como a necessidade de expansão dos investimentos como principal agente propulsor do expansionismo e da obtenção de territórios exclusivos do ponto de vista comercial, todavia esta noção é desconstruída com um conjunto de constatações; talvez a mais importante delas esteja no baixo volume de capital aplicado nas áreas conquistadas pelos impérios. A exemplificação da Inglaterra que destinou a maior parte de seus investimentos para as colônias de povoamento já existentes confere contornos finais a esta hipótese.
O fator econômico ainda que descartado o seu lado investidor como o grande incentivador do imperialismo, não perde em importância, sobretudo do ponto de vista da procura de mercados consumidores. Como Hobsbawm destaca, ainda que por algumas vezes esta busca tenha fracassado, a motivação derivada deste processo é inegável; assim é possível demarcar um conceito mais aproximado do movimento contido no período de 1875-1914, uma conseqüência da dinâmica econômica internacional estimulada pelas rivalidades entre potências e suas produções industriais, cada vez mais concorrentes e intensas.
A rivalidade mencionada é estendida quando o autor trata do caráter simbólico no qual o imperialismo estava imerso. O status de potência passou a estar atrelado a capacidade de cada nação em subjugar países, territórios e culturas, como Hobsbawm ressalta:

Uma vez que o status de grande potência se associou, assim, à sua bandeira tremulando em alguma praia bordada de palmeiras (ou, mais provavelmente, em áreas cobertas de arbustos secos), a aquisição de colônias se tornou um símbolo de status em si, independente de seu valor. ( HOBSBAWM,1988,P.102).

Logo é introduzida uma nova justificativa ao expansionismo imperial, o poder frente a outras potências; além de significar que a cada novo território conquistado constituiria menos uma opção as forças concorrentes.
O caso italiano pode ser destacado como eficiente exemplo desta premissa, possuindo um poderio consideravelmente inferior as demais potências, e possivelmente sendo a nação européia de segunda grandeza mais fraca, especializou-se em conquistar áreas montanhosas e desérticas, desprezadas pelos demais impérios, porém ainda relevantes para este processo de obtenção de status.
Diante do exposto como caráter final da análise do referido texto, o proposto por Hobsbawm possibilita entender o imperialismo como um processo impossível de ser estudado separando-se os aspectos político e econômico. A busca por mercados consumidores e a exploração ainda que secundária das riquezas naturais presentes em áreas conquistadas caminham no mesmo ritmo com as rivalidades ideológicas e até mesmo nacionalistas, como autor ressalta; apesar de não se notabilizar melhoras efetivas da condição de vida européia com o imperialismo, a noção de grandeza e superioridade é fomentada, deste modo a procura por vantagens econômicas e a afirmação da nação certamente podem ser elencadas como importantes propulsores da divisão a qual a maior parte do mundo fora alvo.



sexta-feira, 11 de abril de 2008

Fichamento de HOBSBAWM, Eric J. Uma economia mudando de marcha. (capítulo II). In: A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. p

Eric J. Hobsbawm em seu texto, Uma Economia Mudando de Marcha, propõe-se a analisar as transformações das relações capitalistas de fins do XIX e início do XX, esmiuçando o poder de adaptação das economias centrais e o surgimento de novos eixos, sobretudo posteriormente a “Grande Depressão”.
O autor inicia sua produção com o objetivo de visualizar de forma mais clara as crises econômicas ocorridas na segunda metade do século XIX. Primeiramente é destacado que em tal período, diferentemente do que se possa supor, a produção não apresentou níveis de estagnação ou queda, mas um intenso aumento.
Somado ao elevado índice produtivo, o texto contém dados que evidenciam maciços investimentos do capital europeu em outros estados, observando-se a América como um dos principais destinos deste tipo de empreendimento, juntamente com este a proporção da entrada de imigrantes eleva-se consideravelmente. Baseando-se nestas premissas, o autor realiza o questionamento central de sua referida produção: Será que um período com um aumento tão espetacular da produção podia ser descrito como uma “Grande Depressão”?(HOBSBAWM, 1988, p.59).
Diante da questão registrada outros parâmetros são formulados ao longo do texto, o que auxilia a compreensão do caráter complexo do termo crise, principalmente no pós- segunda Revolução Industrial, assim como as várias “feições” as quais o capitalismo se apresenta.
Inicialmente a dissociação entre produção e depressão fica evidenciada. Hobsbawm demonstra que a principal preocupação de economistas e empresários consistia na diminuição da margem de lucros. Logo o problema central não reside na produtividade alcançada e sim na possível rentabilidade desta.
Um exemplo de tal lógica estava na agricultura. A produção agrícola havia atingido volumes elevadíssimos, porém, segundo Hobsbawm com a diminuição do custo de transporte e a entrada extrema dos produtos primários no mercado mundial a desvalorização se tornou algo praticamente inevitável.
As conseqüências deste processo, no que diz respeito às camadas populares concretizaram-se na emigração, o que ajuda no entendimento das observações mencionadas em relação à chegada de grande número de imigrantes a América, e na formação de cooperativas principalmente entre os que não possuíam terras ou capital.
O sistema industrial não constituiu exceção, distante disto, os complexos industriais sofreram os efeitos da super-produção. O caráter dual do capitalismo é demonstrado para se entender o processo. Este sistema em sua constante busca por novas tecnologias que possibilitem a obtenção de uma capacidade produtiva cada vez maior, introduz a perspectiva de elevação dos lucros, com uma produção mais eficiente a um custo menor. Simultaneamente contribui para a desvalorização do bem envolvido; acrescentando-se a isto uma de suas principais bases; a concorrência, que igualmente irá propiciar uma elevação quantitativa do bem no mercado, o que contribui para a queda de seu valor.
Assim, conforme o exposto, o autor expõe as respectivas reações relacionadas às crises econômicas, confirmando a lógica capitalista de mudança e adaptação. O protecionismo é descrito como a ação política contra a “Depressão”, porém as reações do capitalismo, segundo Hobsbawm, partem em outra direção.
A concentração econômica é apontada como um dos formatos adquiridos pelos agentes do capital. O controle do mercado entre empresas que a priori deveriam ser concorrentes, determina praticamente o domínio de importantes fatias da economia, o que em tese garantiria extensas proporções de lucros. Como ressalta o autor, haveria uma propensão ao monopólio e ao oligopólio, sobretudo na indústria pesada, em setores atrelados a encomendas governamentais.
Uma outra forma de reação capitalista consistiria na administração científica. Basicamente este conceito envolve um formato de produção industrial que viabilizaria o incremento produtivo com um operariado mais eficiente, por meio de novos métodos, como a divisão sistemática, o estabelecimento de metas e o pagamento de salários de acordo com o nível de trabalho.
Uma terceira possibilidade consiste no Imperialismo, derivada igualmente das forças capitalistas. A lógica de expansão dos mercados consumidores comanda este conceito, além da minimização dos problemas sociais como o envio de grandes contingentes as áreas de influência.
As considerações apresentadas tratam de ampliar os parâmetros do que pode ser entendido como crise. Esta pertencente a um sistema capitalista intimamente ligado a segunda revolução industrial. Igualmente ocorre a ilustração das mutações às quais o capitalismo é capaz. Posteriormente Hobsbawm trata de mais uma alteração consumada com o referido sistema, proposição na qual o autor procura sintetizar a economia mundial na era dos impérios, traçando uma linha de raciocínio até os novos contornos apresentados.
Diante do exposto pode-se notar que o caráter mais extenso no que se refere à termos geográficos, a quantidade de países industrializados aumentara, incluindo estados fora do centro europeu, propiciou uma rivalidade entre potências. O que acabou por marcar a dinâmica do período. Somados a este fator, a revolução tecnológica conferiu novos padrões e escalas a praticamente todos os aspectos econômicos, de certa forma remodelando-os.
A personificação deste processo pode ser visualizada na Inglaterra que mesmo reduzindo sua efetiva produção industrial, continuou exercendo papel fundamental na economia global, principalmente com a venda de serviços e investimentos. O que confirma a lógica capitalista, cada vez mais passível de transformações, e que permite evidenciar que as crises são tão pertencentes ao capitalismo como a concorrência, o lucro, a necessidade de expansão de consumidores e a mutabilidade a qual reside a garantia de sua sobrevivência.

sábado, 29 de março de 2008

Fichamento de HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Centenária. In: A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1988. pp.29-56. (texto 3).

Eric J. Hobsbawm determina de forma explícita em seu texto, A Revolução Centenária, o questionamento e a intenção de promover uma análise comparativa da situação mundial entre os términos dos séculos XVIII e XIX, a título de simplificação e um melhor entendimento dos mecanismos exercidos pelo autor, trataremos de esmiuçar seus destaques em relação aos fins do XIX contrastando com a mesma parcela temporal do XVIII.
Inicialmente são abordados os aspectos tecnológicos que no espaço de uma centena de anos haviam realizado um salto e transformado diversos setores da sociedade. Assim o autor destaca a ferrovia e a navegação a vapor que além de reduzirem o tempo necessário para se percorrer distâncias consideráveis, aumentaram em larga escala a capacidade de transporte.
O número de habitantes do globo tem neste espaço de tempo uma intensa elevação, ainda que os asiáticos permanecessem em quantidade majoritária; os europeus quase dobraram o seu contingente. Este fato permitiu um deslocamento inédito em termos quantitativos da população européia pelo mundo, sobretudo para as Américas que no respectivo momento histórico praticamente quintuplicam seu número de habitantes.
O autor ainda utiliza mais algumas páginas explorando a questão dos avanços técnicos, como o telégrafo elétrico, o que concretizou a transmissão de informações a diversas partes do globo. Além de mencionar igualmente o volume notável de circulação de bens, pessoas, capital; logo o mundo até então não tinha conhecido um nível de aproximação com tamanha complexidade. Contudo, após se reter aos itens positivos atrelados a este progresso, Hobsbawm destaca os efeitos negativos de tais transformações, mais especificamente os provocados pelo capitalismo, agora mundial.
O texto traz os efeitos da revolução industrial, que aproxima pessoas, culturas e países e que simultaneamente divide mercados, capitais, provoca rivalidades e estabelece os mais profundos laços de dependência. Como o autor afirma:

...no século XIX a defasagem entre os países ocidentais, base da revolução econômica que estava transformando o mundo, e os demais se ampliou, primeiro devagar, depois cada vez mais rápido. (HOBSBAWM, 1988,p.32.).

As diferenças entre países europeus e o resto do mundo, e entre os próprios estados do velho mundo, começam a ser de modo crescente mais marcantes.
Um bom exemplo deste processo consiste na tecnologia, os avanços da ciência ainda que se tornassem de conhecimento geral, no que diz respeito a sua divulgação pelos mais variados países, o seu acesso era extremamente restrito. Somado a esta desigualdade técnica, o pêndulo bélico que comumente tendia ao lado europeu com a revolução industrial e seu respectivo fortalecimento, praticamente se quebra na direção do velho continente, a desproporcionalidade entre o poderio militar dos países ricos industrializados e os especialistas primários ganha contornos de abismo.
As considerações seguintes tratam de demonstrar a complexidade de se estabelecer algumas divisões. Como a de classificar a situação mundial formada por dois blocos, o primeiro de países ricos e o segundo de estados pobres. Apesar da aparente simplicidade de tal denominação, Hobsbawm enfatiza que:

Enquanto o (menor) Primeiro Mundo, apesar de suas consideráveis disparidades internas, era unido pela história e por ser portador conjunto do desenvolvimento capitalista, o Segundo Mundo (muito maior) não era unido senão por suas relações com o primeiro, quer dizer, por sua dependência potencial ou real. (HOBSBAWM,1988,p.33.).

Deste modo, após ter tratado de um mundo interligado, e de uma sociedade testemunha de grandes avanços. O autor começa a abordar as nuances econômicas e seus respectivos efeitos em países que visualizam laços cada vez mais profundos e conseqüências cada vez mais distintas.
Como Hobsbawm expõe, o continnente europeu em meados de 1880 era o centro capitalista original dominante e principal agente transformador do planeta. Ainda que as diferenças internas da Europa fossem consideráveis, a sociedade européia começa a notar a expansão de conceitos como o de cidadão, e visualiza seus direitos e deveres fincarem raízes; de forma mais intensa ou mais gradual as localidades da região ganham acesso à concretização de alguns aspectos até então apenas teóricos.
África, Ásia e América,contrastando com este cenário, distanciam-se desta realidade. A dependência econômica e até mesmo de um modo mais direto no campo político, acrescentados a uma forte dominação interna de algumas elites comprometidas com seus interesses mais do que nunca internacionais como no caso da América, com exceção dos Estados Unidos, estabelecem um atraso em quase todos os níveis em relação ao centro europeu.
Uma corrente intelectual, ignorando estes fatores, utilizou-se da biologia para fundamentar tais desigualdades. A humanidade fora dividida e hierarquizada, o branco europeu (rico) é colocado no topo da evolução. Com esta proposta justificava-se a pobreza no mundo como algo biológico, logo não eram a exploração econômica, a dominação bélica e a imposição política que provocavam tais particularidades, e sim a natureza.
Diante do exposto, Hobsbawm consegue apresentar o caráter dual do avanço industrial capitalista e o relativo progresso da humanidade entre os séculos XVIII e XIX, a sociedade encurtou distâncias, acelerou a produção, propagou de modo inédito a informação, contudo aumentou as discrepâncias entre as pátrias, concedeu uma voz ainda maior as armas e por fim hierarquizou a humanidade tornando natural os problemas cada vez mais frutos da ação do homem.

Fichamento de FALCON, Francisco José Calazans. O Capitalismo unifica o mundo. In:O Século XX . Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. pp.13-73.

Francisco José Calazans Falcon se propõe a realizar uma análise do capitalismo, o que implica na tentativa de conceituar suas bases; além de como eixo principal de seu texto descrever de que maneira este sistema progressivamente avançou pelas fronteiras das mais variadas culturas e quais impactos tal entrada proporcionou.
Inicialmente o autor registra o grau de dificuldade presente no trabalho com os conceitos. Segundo este, o lide conceitual possui na abstração das idéias e em sua generalidade os principais obstáculos a serem enfrentados. Deste modo, após explicitar possíveis comprometimentos de sua abordagem o autor a começa de fato pela construção da noção de mercado.
Priorizando-se a definição que se mostra mais útil e relevante ao longo do texto, conforme explicita Falcon:
O mercado genérico é então algo como um “sistema” de dimensões variáveis que articula todo um conjunto de mercados concretos, de produtos destinados ao consumo ou a novos negócios, ou de fatores de produção ( terra, capitais, trabalho).( FALCON,2000,p.15.).

Após tais considerações o autor introduz o questionamento sobre a capacidade do referido mercado se auto regular. Firmado o conceito de mercado, o texto alcança o que aparentemente consiste no ponto de maior pertinência da discussão; O que pode ser compreendido e aceito como capitalismo? Esta proposta norteará todo o rumo do referido estudo.
Antecedendo-se a qualquer tipo de resposta, o autor preocupa-se em expandir os mecanismos que possam auxiliar na formação de um parâmetro. Razão pela qual a história da constituição do mercado internacional é abordada. Esta é entendida como uma dinâmica na qual os Estados modernos europeus e suas disputas pelos lucros provenientes do sistema de colônias, guiadas pelas premissas mercantilistas presentes no antigo regime, assim segundo Falcon os séculos anteriores a revolução industrial podem ser considerados como pré-capitalistas, igualmente estabelecendo-se par tal período o domínio do capital comercial.
Deste modo o texto traz uma outra importante consideração sobre a história do mercado internacional, contudo em termos de análise do “sistema mundial moderno”, este por sua vez tem como principal objetivo a articulação dos modos produtivos. Logo, o mercado mundial da era moderna se estabelece como a integração e hierarquização de regiões e modos de produção que se distribuem por blocos denominados: centro, periferia e semi-periferia.
Posteriormente as considerações sobre a história do mercado internacional, Falcon organiza seu texto realizando a seguinte divisão: O período pré-capitalista e o capitalista de fato. Considerando que os séculos XV/XVI ao XVIII correspondem ao primeiro e os séculos XIX e XX ao último. Deste modo utilizando-se de E.Labrousse o autor inicia uma importante diferenciação do pré-capitalismo e o capitalismo respectivamente.
Iniciando-se pelo regime econômico anterior ao capitalista são estabelecidas três características básicas. A primeira delas constitui a primazia da agricultura, acompanhada da precariedade dos transportes e uma indústria de bens de consumo.
Diferentemente do capitalismo propriamente dito; este possui o predomínio da indústria, não somente no valor dos investimentos, mas igualmente em sua importância estratégica, como o autor registra: A indústria pesada prepondera, economicamente, sobre as indústrias leves.( FALCON, 2000, p.21). Os transportes oferecem maior eficiência tanto no tempo como na capacidade de carregamento. E finalmente o mecanismo das crises sofre uma modificação basilar não mais a de subsistência e sim a de super-produção e a conseqüente desvalorização e queda nos preços.
Com estas particularidades, o texto responde o que pode ser entendido como capitalismo, além de tecer uma cadeia de informações fundamentais que auxiliarão o alcance do objetivo ora mencionado; A compreensão de como o capitalismo unifica o mundo.
Falcon ressalta a mudança da forma, assim como do papel desempenhado pela indústria no capitalismo, esta passa, além de uma atividade altamente lucrativa , a ser algo estratégico. Como determina o mesmo, a expansão capitalista no século XIX constitui em um processo intimamente ligado a existência de um sistema de Estados-Nações. Logo a importância de uma industrialização bem sucedida acaba por ser sinônimo de liderança, ou pelo menos um papel relevante, na expansão colonial e financeira do capital.
Um segundo ponto a ser destacado do que fora afirmado esta na evolução dos transportes, como dito; mais rápidos e com uma capacidade maior, o capitalismo ganha “asas”, esta progressivamente contribuem para uma maior integração do mercado nacional e em último o degrau, e essência defendida pelo texto, a formação de um mercado internacional cada vez mais entrosado, unido pelo capital, pela produção, pelo intercâmbio.
Esta premissa culmina com o chamado Neo-colonialismo. Através da supremacia inglesa, no que diz respeito a tecnologia como um todo, seja ela industrial-comercial, ou industrial-bélica, juntamente com uma rival, ainda que inferior, poderosa; a França, e uma Europa sedenta por colocar em prática o exemplo Inglês, o continente africano e o asiático são inseridos na dinâmica capitalista, por meios econômicos ou pelo poderio militar, as potência de “primeira e segunda grandezas” inundam os territórios extra-europeus com seus produtos e suas dinâmicas, seu capital e seus soldados.
Sequencialmente Estados Unidos e Japão dão origem a novos centros Imperialistas-Capitalistas, contudo a Europa até meados da primeira guerra mundial desponta como o grande centro irradiador do capitalismo. Assim, sobrepujando costumes locais, formas de comércio e produção regionais, o capitalismo concedeu ap mundo a mesma batida econômica. Ainda que esta progressivamente fosse ditada em ritmos cada vez mais distintos.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Resumo de BERMAN, Marshall. Modernidade: Ontem, Hoje e Amanhã. In: Tudo o que é sólido desmancha no ar. (Texto1).

A introdução, Modernidade: Ontem, Hoje e Amanhã; contida no trabalho de Marshall Berman, “Tudo o que é sólido desmancha no ar; A Aventura da modernidade” inicia a discussão sobre como aproximar-se de um entendimento do que venha a ser modernidade, além de abordar como esta concepção sofreu modificações através dos séculos, e igualmente há a tentativa de possibilitar uma melhor compreensão dos conceitos e movimentos a esta atrelada.
A explanação tem no seu início o estabelecimento do caráter paradoxal do que venha a ser o moderno. As possibilidades transformadoras desta noção somente se igualam em número e intensidade às perspectivas destruidoras. Segundo o autor se o novo confere a promessa de aventura, progresso e superação de barreiras, do mesmo modo este poderia vir a desencadear a perda do que já fora alcançado, o que confirma o paradoxo da experiência moderna.
Firmado esta premissa, Berman registra a intenção de compreender de que maneira as transformações as quais o conceito de moderno sofreu podem influenciar no que hoje se considera modernidade. A divisão da História da modernidade proposta pelo autor visa claramente cumprir esta, apesar do mesmo reconhecer a impossibilidade de se precisar algo tão extenso.
Detalhando tal divisão, a primeira fase deste processo, conforme o texto discutido, está no início do século XVI até o término do XVIII, período no qual as pessoas não possuem um percepção nítida do movimento proveniente da modernidade, ainda que estas possam estar inseridas de modo mais intenso neste.
A segunda fase consiste no momento pós-revolucionário de 1790. Como expõe Marshall as pessoas detêm o sentimento de viver em meio as “ondas” revolucionárias e seus respectivos efeitos nos campos econômico, político e social; contudo este mesmo público simultaneamente traz marcado a experiência do que é estar em um mundo que não realizou outras tantas transformações, tal conflito fica o aspecto dual desta fase.A dualidade citada ajuda a construir a idéia de modernismo e modernização. Estes irão caracterizar amplamente a terceira e atual fase, expandindo-se virtualmente, como ressalta o autor, por todo o globo.
Após propor esta divisão o autor explicita novamente a contradição na qual a palavra modernidade está ligada, pois de acordo com este o alcance global do moderno atua de modo a fragmentar, defasar e enfraquecer a formulação de um conceito que realmente esteja presente na vida das pessoas, desta realidade derivaria a perda da era moderna do contato com as raízes de sua própria modernidade.
Com o intuito de esclarecer o paradoxo e a maleabilidade pertencentes as noções de modernização e modernidade, Berman se utiliza das percepções de Marx e Nietzsche. Primeiramente o autor enfatiza a porção irônica da modernidade, pois, segundo Marx, as forças de vanguarda da sociedade devem ser governadas pelos homens de vanguarda, ou seja os operários, ainda de acordo com Marx, estes são uma invenção dos tempos modernos tal qual o maquinário.Deste modo, utilizando-se o pensamento de Marx o autor aplica a este sua própria dinâmica, logo caso o proletariado atingisse o poder o que impediria de ser absorvido por uma nova forma social?
Marshall reafirma sua compreensão da modernidade como caminhos que possam conduzir a um trevo de oportunidades ou ao abismo do caos ao citar Nietzsche, este considera a humanidade em meio a uma grande ausência de valores, entretanto em meio a uma desconcertante abundância de possibilidades.
O autor menciona o elo de importantes pensadores do século XIX, entre eles os já citados, a respeito do homem moderno, este teria a capacidade de mesmo fazendo parte de um infeliz presente poder imaginar um caminha alternativo capaz de ganhar contornos de brecha para o futuro.
A credulidade do século XIX apresentada irá contrastar com o início do século XX e a descrença de Weber, segundo este seus respectivos contemporâneos constituíam uma massa nula que acreditava que acreditava ter atingido um nível de desenvolvimento inédito. Conforme Berman, este pensamento traduz o desaparecimento do homem moderno como um ser vivente capaz de julgar e agir sobre o mundo. O texto destaca a adesão deste conceito por vários pensadores do século XX.
Próximo desta concepção, segundo Marshall, o modernismo aparece como um caminho de libertar artistas modernos das impurezas e vulgaridades da vida moderna, completamente “ausente” de preocupações com a dinâmica social, assim como de suas problemáticas.
Contrariando o afirmado por Weber e seus simpatizantes, vários pensadores vislumbraram o modernismo como uma constante ferramenta contra a totalidade da existência moderna. Esta imagem ganhou força com o apogeu da atmosfera política, sobretudo na década de 60.
Posteriormente registra-se no texto a filiação de artistas e trabalhadores intelectuais ao estruturalismo que risca a questão da modernidade; além do pós- modernismo que de acordo com Berman, não passa de um movimento fomentador da ignorância da história e da cultura modernas.
O autor encerra seu texto consolidando sua crença de que os modernismos predecessores podem resgatar o sentido de nossas raízes modernas, por meio da recordação dos modernistas do século XIX haveria uma possível renovação da coragem para criar novos agentes modernos; assim analisar as modernidades anteriores poderia ser para Marshall uma crítica às atuais e uma esperança a construção de futuras.